sábado, 8 de março de 2014

Que mal há na religião?*


Seria a religião um mal necessário? Há alguns dias ouvi um colega de trabalho sustentando tal opinião. Somos ambos professores: eu, um ateu recém convencido do equívoco do ateísmo e um entusiasmado defensor de um conhecimento possível e verdadeiro; ele, um cristão evangélico adepto do relativismo moral e epistemológico. Ou seja, enquanto defendo a radicalidade de uma concepção de verdade e de moral, ele, em vez de defender a legitimidade da pretensão do Cristianismo à verdade e a atualidade da moral cristã, apenas vislumbra um mundo caótico caso o ser humano chegue à conclusão de que suas crenças não passam de meras ilusões. Nesse caso, não importa o conteúdo religioso, mas os resultados alcançados. A religião, assim, converte-se tão-somente em um freio, uma forma de conter os excessos de indivíduos naturalmente egoístas, tanto mais se cônscios de serem plenamente “donos de si”. Sem as amarras morais da religião – raciocina meu colega –, o indivíduo se sente livre para entregar-se a toda sorte de vício, agindo apenas em benefício próprio, em busca da fruição do maior prazer possível, sobretudo em vista de sua existência efêmera e sem esperança. A consequência disso seria a volta ao estado de natureza, não aquele pensado por Rousseau, mas o concebido por Hobbes. Seria o estabelecimento do reino do egoísmo, no qual prevalece sempre a “moral” do mais forte. Esse é um ponto importante do seu raciocínio. Outro é a ideia de que desvencilhar-se das verdades religiosas poderia levar alguns a assumirem uma postura negativa diante da vida, o que, por sua vez, fatalmente poderia conduzir à depressão ou ao suicídio. A religião seria, assim, um alento, e, por conferir significado à existência humana, um elemento motivador da vida. Seriam as ditas muletas que possibilitam a caminhada dos débeis homens. Freio ou muleta, eis os denominadores comuns das religiões, segundo meu colega, e de acordo com o senso comum. Desse modo, a falta de religião ou catapulta o indivíduo para assumir-se como um imoral protagonista de sua vida, não devendo prestar contas de nada a ninguém, ou lança-o no mais fundo dos abismos do niilismo e da miséria humana.

Não, caro leitor, não creio que meu colega tenha razão: a religião não é um mal necessário. Afirmá-lo implicaria conceber um conceito de mal com o qual a religião possa ter alguma relação. Implicaria também a assunção da ideia de que, em dados contextos, certo grau de maldade pode ser necessário. Confesso que hoje não consigo refletir sobre essas implicações sem enxergar muitas incongruências e contradições. Vejamos algumas.

Incongruência nº 1: suponhamos que eu aceite que não existe algo a que se possa chamar de verdade, muito menos de “a” Verdade, com “V” maiúsculo, conforme afirma Nietzsche, entre outros autores pós-modernos. Isso minaria as pretensões da religião de descrever, além da interioridade do homem, a realidade externa a ele. Se assim é, por que eu, tendo compreendido tal verdade, isto é, que nada podemos saber com certeza, submeto-me ao discurso mistificador da religião? Tendo tal consciência, como poderia professar uma fé que sei, de antemão, que se baseia em ilusões? Se a religião é um freio, e o ser humano precisa de alguma forma de contenção, então é possível concluirmos que se está defendendo que a ignorância, sim, é um mal necessário. Mas se eu defendo a necessidade do mal da religião eu não sou um ignorante. Portanto, não posso coerentemente ser um cristão e ao mesmo tempo assumir a impossibilidade do conhecimento.

Incongruência nº 2: suponhamos mais uma vez que Nietzsche tenha razão, agora em sua crítica demolidora à moral ocidental e cristã. Uma vez que eu entenda que qualquer alicerce sobre o qual se possa construir alguma noção de moralidade foi removido, como posso assumir que a religião é um mal? O que significa dizer isso? Seria conceber que há algo a que se possa chamar de mal, mas isso contradiz o discurso do relativismo moral. Segundo essa perspectiva, não existe mal, mas apenas o mal em relação a uma dada cultura, a um dado tempo, e – pior! – a uma dada pessoa. Ora, se assumo o subjetivismo ético quando afirmo que a religião é um mal, apenas estou expressando uma opinião ou uma preferência, nunca uma descrição objetiva da realidade. Portanto, a religião não é um mal.

Incongruência nº 3: se entendo que a moral consiste em uma criação humana e contingente, como posso defender a necessidade de um mal? A afirmação de que a religião é um mal necessário implica a ideia de que é necessário em vista de um bem maior. Se você está doente, submeter-se à dor de uma injeção pode ser entendido como um mal necessário em vista do bem maior de ficar curado. Mas de onde nascem as afirmações axiológicas do homem pós-moderno? O que significa efetivamente bem e, em especial, bem maior? Por que um mundo sem egoísmo e com esperança é um bem maior do que um mundo com pessoas egocêntricas e pessimistas? Por que deveríamos preferir uma coisa à outra? A resposta pode parecer evidente para o distinto leitor, mas presumo que isso se dá porque não assume até as últimas consequências as implicações filosóficas do subjetivismo ético.

Incongruência nº 4: ouço com frequência a associação entre religião e fanatismo. Meu colega se apressa em afirmar que é religioso, mas não fanático, o que significa que ele não se vê como “dono da verdade”, estando aberto a considerar a validade de outras perspectivas. Receio que haja aqui um equívoco. Compreende-se que quem defende qualquer coisa como objetivamente verdadeiro é um fanático, incapaz de dialogar com quem quer que seja. É isso que pensa o professor e, na esteira dessa compreensão, cita Voltaire: “Posso não concordar com nada do que dizes, mas defenderei até à morte o direito de dizê-lo”. Acontece que o filósofo francês acreditava na verdade de seu discurso a favor da tolerância! E o que ele diz efetivamente? Que está disposto a ouvir, a respeitar, a tolerar quem pensa diferente dele, no entanto ele não se mostra igualmente disposto a abrir mão de suas convicções! Vivendo sob a atmosfera do Iluminismo e sendo, sobretudo, influenciado pelo empirismo de John Locke, Voltaire acreditava na possibilidade de um conhecimento científico e inequívoco. Ele nunca foi um relativista, haja vista estar circunscrito no momento que marcou o início da modernidade, com sua crença na inevitabilidade do progresso científico e moral do ser humano.

Eu poderia apontar outras inconsistências, mas creio que essas aqui expostas já deixam claro que defender que a religião é um mal necessário implica envolver-se em grandes dificuldades. Quanto a mim, penso que a religião é, sim, necessária, mas necessária do ponto de vista lógico. Ou seja, sendo o homem um ser, ainda mais um ser moral, infiro que Deus existe necessariamente e, assumindo a verdade da existência de Deus, entendo também que a religião inevitavelmente se insere na história humana sobre este planeta. Não existe cultura humana no passado ou no presente sem religião. Portanto, a religião é necessária sim, mas nunca um mal. E não há dúvidas: o meu colega está completamente enganado.

Sérgio Santos da Silva

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*Ensaio originalmente publicado na revista virtual Kukukaya, disponível aqui. 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Ser ou não ser: eis a questão*


O caro leitor, se leu os meus ensaios anteriores e se interessou pelo que leu, deve estar na expectativa de que eu lhe apresente, neste ou nos futuros textos, uma prova cabal, definitiva, que demonstre que Deus existe. Não a terá. E por que não? Porque o tema é de natureza filosófica e quem exige uma prova da existência de Deus quase sempre é alguém já comprometido com uma cosmovisão materialista, e que, por essa razão, sequer compreende o conceito de Deus. Outro dia um amigo me pediu que eu dissesse de que o Criador era feito. Se Ele existe de fato – raciocinava –, certamente teria alguma “substância” e esta deveria ser de alguma forma detectável e analisável pelos físicos. Simplesmente não compreendia a ideia de Deus. Eu mesmo só consegui compreendê-la quando me desliguei totalmente de meu compromisso com o materialismo. Só mesmo quando meu compromisso passou a ser apenas com a verdade, aquela, com V maiúsculo, e não a outra, “de mentirinha”, plural e pós-moderna, consegui vislumbrar um pouco de luz no fim do túnel. Por isso estou renascendo, por isso estou reaprendendo a ser. Trata-se da recriação do meu universo, a prova da existência de Deus.

Sim, o ato de criar é divino. Deus está nos começos. Para explicar isso, não posso deixar de refletir sobre um começo tão prosaico, mas tão propenso a suscitar reflexões filosóficas: 2014 começou. Começou em 1º de janeiro. E se tal é óbvio e de conhecimento geral, devo dizer que, de regra, a obviedade esconde certos mistérios. E o que é o filosofar senão espremer o óbvio até dele extrair o inusitado, o insólito? Claro, o 1º de janeiro é o começo de um novo ano, mas o começo do ano novo não existe por si. É necessário que anteceda o 1º de janeiro o 31 de dezembro e que a este anteceda o dia 30, antecedido, por sua vez, pelo dia 29, e assim por diante até o começo dos séculos. Começo? Claro, em algum momento a corda do relógio foi dada e a contagem do tempo se iniciou. O tempo passou a existir. Entender isso já é o suficiente para mim. Se o tempo passou a existir, é porque antes não existia e se não existia, é porque o que fez o tempo surgir não estava preso ao tempo.

Se o caro leitor é ateu e um ateu “com certa quilometragem” já deve estar cansado de ouvir o argumento da causa primeira em favor da existência de Deus e deve ter desconfiado que seja sobre isso que falei no parágrafo acima. Você quase acertou. Na literatura filosófica, a denominação mais usada parece ser “argumento cosmológico”, ou pelo menos é a nomenclatura preferida de teólogos. Tal argumento parece afirmar que todas as coisas têm uma causa e, sendo assim, se o mundo existe, este tem uma causa. A causa apontada invariavelmente é Deus. Sei que normalmente você objeta que se tudo tem uma causa, Deus não poderia fugir à regra, prescindindo, assim, de uma causa para si, no que lhe dou total razão. Dou-lhe razão porque não é isso que eu defendo aqui, nem acho que seja isso, no geral, que defendem teístas esclarecidos. A diferença entre o argumento que você conhece para este que exponho agora consiste na distinção entre “existir” e “passar a existir”. Não estou querendo, do fato de que hoje, por exemplo, é 1º de janeiro, inferir-lhe uma causa, embora tal inferência seja possível. Estou, em vez disso, perguntando-me como pode acontecer de passar a existir o dia 1º de janeiro. Esse é o mistério: mais espantoso do que não saber porque algo é é não saber como algo que não é passa a ser. No entanto, sabemos disto: o primeiro dia deste ano estava adormecido, em estado de potência, no último dia do ano que passou.

Entenda o que quero dizer: tudo que passa a ser tem uma causa e o nosso universo passou a ser, passou a existir. Nisso estão de acordo teólogos e cientistas. A Bíblia traz a narrativa de um Criador onipotente, onisciente e onipresente que criou do nada, tirando o ser do não-ser. A Teoria Padrão do Big Bang descreve um momento primordial em que teve origem a matéria, o tempo e o espaço. Em outras palavras, o universo. Ou seja, a matéria veio da não-matéria, o tempo do não-tempo e o espaço do não-espaço. Se é assim, que causa teria provocado a passagem do não-ser para o ser? Qual seria a causa do universo? Parece-me razoável deduzir que tal causa deva ser distinta de seu efeito, pois, do contrário, não se poderia falar em causa e efeito. Se a matéria passou a existir, sua causa necessariamente é imaterial. Trata-se de lógica simples. Se a causa fosse material, a matéria existiria antes de passar a existir, o que não faria sentido algum. O raciocínio vale para todas as demais propriedades do cosmos. Sendo assim, a causa do universo é imaterial, atemporal e não-espacial. Além disso, certamente muito poderosa, pois somente um poder muito grande proporcionaria a passagem da não-existência para a existência. Esse ser (sim, um causa impessoal não pode dar origem a uma ação criadora), por fazer algo existir, logicamente não existe como as demais coisas existentes, mas é. É sem que tenha vindo a ser. Coincidentemente todas as características do Deus bíblico criador.

Mas não pense que estou defendendo com isso a existência do Deus judaico-cristão. Não se trata disso. No entanto, defendo que judeus e cristãos têm bases concretas para acreditarem no Criador descrito na Bíblia. Não me arrisco a falar dos muçulmanos por conhecer muito pouco o Alcorão, mas suponho que estes pensam no Criador em termos semelhantes. Um ser que nunca teve começo, mas que deu origem a todos os começos. Entender isso faz a gente renascer, caro leitor, faz a gente passar a ser.

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* Ensaio publicado na revista eletrônica Kukukaya, nº 4, de janeiro de 2014, acessível aqui.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

À semelhança de André e Norma


Bem, resolvi imitar meus amigos André Venâncio e Norma Braga, que mantêm o blog Tamos lendo, acessível aqui, e também divulgar minha lista de livros lidos ao longo de 2013. Bem, não consegui fazer um "top 10", como o André fez, uma vez que quase todos os títulos lidos me marcaram de certa forma. Sendo assim, preferi citar, ainda que de memória, as obras que mais me surpreenderam no ano passado. Eis a lista:

Admirável mundo novo, de Aldous Huxley

1984, de George Orwell

Olhai os lírios do campo, de Érico Veríssimo

Livro de Palavra, de João Andrade

O futuro de uma ilusão, de Sigmund Freud

História natural da religião, de David Hume

Deus reconhecerá os seus, de Maria Nazareth Alvim de Barros

As máscaras do ateísmo, de A. S. Freitas

Cristianismo puro e simples, de C. S. Lewis

A abolição do homem, de C. S. Lewis

Não tenho fé suficiente para ser ateu, de Norman Geisler & Frank Turek

Em guarda, de Willian Lane Craig

Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx

10 lições sobre Marx, de Fernando Magalhães

Esquerda Caviar, de Rodrigo Constantino

O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, de Olavo de Carvalho

50 ano a mil, de Lobão e Claudio Tognolli

Manifesto do nada na terra do nunca, de Lobão

Contra um mundo melhor, de Luís Felipe Pondé

Guia politicamente incorreto da filosofia, de Luís Felipe Pondé

Uma breve história da filosofia, de Nigel Warbuton

Recomendo a leitura de qualquer um desses títulos e desejo ao caro leitor que faça muitas descobertas literárias neste ano que se inicia. Desejo também muitas felicidades para o belo casal que pude conhecer no ano passado. Vida longa e próspera. 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A violência contra homossexuais e a suposta culpa do Cristianismo

Não me considero um especialista em Cristianismo. Apesar disso, vejo-me na condição de falar com certa propriedade a respeito da religião que moldou a cultura ocidental. Durante os primeiros 17 anos da minha vida dividi-me entre a profissão de fé católica (até os 11 anos) e a protestante (dos 12 os 17), mas precisamente como membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Nos 17 anos seguintes, ao me converter ao ateísmo, dediquei-me à “militância” contra qualquer ideia religiosa. Escrevo converter sem aspas por hoje compreender de outro modo como se dá a assunção de uma cosmovisão ateísta, sobre o que já falei em ensaios anteriores (disponível aqui e aqui). Escrevo militância, por sua vez, entre aspas, porque julgo que não cheguei a me tornar um missionário às avessas, preocupado em conquistar prosélitos para uma causa superior. No entanto, sempre que havia oportunidade para falar de religião, desferia toda minha condenação contra o fenômeno religioso, o qual seria responsável por todo atraso e violência existente no mundo. Meu anátema era mais contundente quando se referia ao Cristianismo, que teria sacrificado muitos homens da Ciência no altar da Inquisição (Nunca obtive um só exemplo disso, mas...). Esquecia-me, porém, em minha crítica à maior religião do planeta, que, para fazer uma análise mais honesta e científica desse objeto, deveria me apropriar do modo mesmo como o cristão enxerga o mundo. Ou seja, deveria compreender bem o que era de fato o Cristianismo, e não o que eu pensava que deveria ser ou julgava que fosse. Ora, quando criticava o Cristianismo, invariavelmente não o fazia a partir da minha experiência anterior como cristão, mas a partir de uma leitura do Cristianismo feita por seus críticos. Hoje compreendo isso.

É claro: o Cristianismo é criticável. Longe de mim dizer o contrário. Penso até que a maior crítica já feita a ele provém de Nietzsche. O filósofo alemão considerava-o uma religião de ressentidos, uma forma de platonismo que, negando os valores do presente em função de uma imaginária bem-aventurança no porvir, acabava conduzindo a humanidade a um tipo de niilismo. Apesar dessa crítica, a filosofia de Nietzsche era, essencialmente, niilista. De qualquer forma, quando Nietzsche criticava o Cristianismo, ele falava a partir de ideias verdadeiramente cristãs: a mensagem de dar a outra face, o deus que se deixa morrer na cruz, a crença na salvação da alma, a negação dos valores seculares em vista de valores superiores e celestiais, etc. Nietzsche criticou a essência mesma do Cristianismo e não o que lhe era periférico ou até mesmo falso. Talvez seja o caso de a crítica do autor de O Anticristo carecer de sustentação, mas ninguém poderá acusá-lo de ignorância sobre o assunto de que trata ou de desonestidade intelectual, uma vez que nunca precisou criar um espantalho cristão para facilitar sua crítica demolidora. Nietzsche conhecia o Cristianismo muito bem e de perto.

Mas quando escuto alguém alertar para o perigo que o discurso cristão representa para as minorias e oprimidos do mundo, creio que quem fala está tratando de qualquer coisa, menos do Cristianismo. Bem, vejamos: um amigo me fala que é a influência da religião cristã, com seus preconceitos contra os homossexuais, a responsável pela violência praticada contra essa minoria. Nesse caso, houvesse um mundo em que as pessoas pudessem estar salvaguardadas de tal influência nefasta, possivelmente não haveria agressões sistemáticas a homossexuais. Seria possível isso? Estou disposto a enveredar por essa hipótese. Então, vamos lá:

Suponho que meu amigo não queria se referir a um mundo em que o Cristianismo fosse simplesmente eliminado. Evidentemente, sem a hegemonia cristã, o espaço vazio seria ocupado imediatamente pelo Islamismo, a segunda maior religião mundial. Mas, apesar das campanhas de tolerância ao Islã hoje em curso no Ocidente, as quais tentam construir a ideia de que se trata de uma religião de paz (o terrorismo seria obra de uma minoria extremista), todos sabemos o que acontece com os homossexuais nas terras dos aiatolás. Para os desinformados, julgo que é suficiente registrar que na Arábia Saudita, no Sudão e na Somália, por exemplo, a homossexualidade é punida com pena de morte. É claro que sempre se poderia imaginar a hegemonia de outra religião, com um discurso menos opressor, mas, suponho, não era isso a que meu amigo se referia, mas a um mundo sem o Cristianismo ou qualquer outra religião, tal como imaginava John Lennon. Para não perdermos tempo com ficções, analisarei essa proposta à luz de fatos reais e históricos.

Serei direto: a história do Comunismo desmente a tese segundo a qual há uma relação necessária entre uma sociedade sem religião e um mundo mais harmônico e igualitário. O Comunismo é essencialmente ateu e se sustenta em uma concepção materialista da história humana: o motor que a conduz é a luta de classes. Nesse contexto, não há espaço para a transcendência. Foi justamente esse aspecto que Karl Marx ignorou em Hegel, adotando apenas sua dialética. Um mundo mais justo e igualitário deve ser conquistado pelos oprimidos a partir de uma revolução, isto é, sem qualquer intervenção divina. A construção do paraíso na Terra prescinde de Deus. Dessa forma, a religião acaba se revelando como fator de alienação (o “ópio do povo”), sendo, por essa razão, contra-revolucionária, daí ter que ser combatida. Onde o Comunismo imperou, foi justamente isso o que aconteceu. E quanto aos homossexuais? O que aconteceu com essa minoria nos países comunistas? Foram incluídos nessa sociedade ideal em que o leão pasta alegremente ao lado do cordeiro? Absolutamente! Em vez disso, foram duramente perseguidos, presos, submetidos a trabalhos forçados, onde encontraram, na maioria das vezes, a morte. Mas como explicar isso? Ora, com o Stalinismo, a homossexualidade passou a ser entendida como contra-revolucionária e “uma manifestação da decadência da burguesia”. Leia-se o que se acha escrito na Grande Enciclopedia Soviética, editada pelo governo soviético:

“A origem do homossexualismo é ligada às circunstâncias sociais quotidianas, para a grande maioria das pessoas que se dedicam ao homossexualismo, tais perversões se interrompem tão logo que a pessoa se encontre em um ambiente social favorável (…) Na sociedade soviética, com os seus costumes sadios, o homossexualismo é visto como uma perversão sexual e é considerado vergonhoso e criminal. A legislação penal soviética considera o homossexualismo punível, com a exceção daqueles casos nos quais o mesmo seja manifestação de uma profunda desordem psíquica.”

Durante o governo revolucionário de Stálin, a homossexualidade só não era punível em se tratando de casos patológicos.  É interessante saber que muitos artigos contra a homossexualidade foram inseridos em todos os códigos penais das Repúblicas Soviéticas! Ou seja: ainda sem a influência do Cristianismo ou de qualquer outra religião, poderíamos ter do mesmo modo a violência contra os homossexuais se manifestando na sociedade e de forma sistemática. Mas talvez isso ainda não seja suficiente para convencer o meu amigo. Ele talvez raciocine que o Comunismo funcionava, de certa forma, como uma religião de estado e, por essa razão, meu exemplo seria ilegítimo. Talvez seja o caso de eu imaginar um mundo em que todos sejam educados pelos mais belos princípios humanistas. Tentarei enveredar, então, por esse mundo utópico.

Sim, não posso me furtar ao direito de afirmar que tal mundo é utópico, uma vez que nenhuma civilização humana jamais se estabeleceu sem o alicerce de uma religião. Mas não custa nada fazer um esforço para tentar entender o raciocínio aqui. Um mundo só com princípios humanistas. Ok. Remeto-me imediatamente a Jean Jacques Rousseau. O filósofo da era da razão, odiado por tantos que o conheceram pessoalmente, de certa forma recupera a auto-estima do ser humano ao enunciar que todo homem nasce bom, sendo em seguida corrompido pela sociedade, invertendo a mensagem cristã do pecado original, segundo a qual nascemos com uma natureza fundamentalmente má. Parece-me que Rousseau, nesse caso, acreditava na tese do meu amigo. Ora, segundo ele, não fosse a influência nefasta da sociedade, o homem revelaria toda sua bonomia. No entanto, pelo que se sabe, nem Rousseau escapou de tanta corrupção. Sua bondade se manifestou em seu gesto de dar todos os cinco filhos que tivera com uma amante para a adoção alguns anos antes de escrever um livro em que ensina como se deve educar as crianças.  Um comunista, parodiando Rousseau, dirá: não fosse o capitalismo, viveríamos em um mundo mais justo e igualitário. Tudo o que o Comunismo fez, no entanto, foi criar uma igualdade tal qual Orwell descreve em sua Revolução dos bichos: todos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros. Continuando a parodiar Rousseau, não fosse o Cristianismo, então teríamos um mundo em que homossexuais e demais minorias não seriam vítimas da opressão. É isso que você defende, meu amigo? Não creio que se sustente a tese de Rousseau. A História nos concede inúmeros exemplos da nossa maldade essencial. Da propensão do ser humano para o erro e o vício. Essa é a regra geral. Mas voltarei a esse ponto. Antes, porém, desejo discutir outra coisa: será mesmo que o Cristianismo justifica a violência contra homossexuais? Tal mensagem de ódio está contida nos evangelhos?

Iniciei este texto ponderando que era preciso analisar o Cristianismo a partir do próprio Cristianismo e não a partir da visão de seus críticos. Achei necessário repetir isso agora. Meu amigo cita passagens bíblicas em que se ordena que homossexuais sejam mortos. Não me interessa, neste momento, proceder com uma exegese de tais passagens do texto bíblico para demonstrar que sua interpretação é equivocada. Nem sequer fui conferir se tais passagens existem do modo como foram evocadas. Deixo isso para os apologistas cristãos. O problema, para mim, é de ordem mais grave. O equívoco do meu amigo é criticar o Cristianismo a partir do que ele julga que seria coerente o cristão defender, não a partir do que este de fato defende. Bem, se há uma passagem do livro sagrado do Cristianismo que ordena o assassinato de homossexuais, então parece razoável concluir que é isso exatamente o que cristãos defendem. Sério? É isso que o evangélico ouve no culto e na escola dominical? É isso que o católico aprende na missa ou quando se prepara para a primeira comunhão? Nos 17 anos em que professei a religião cristã jamais tive conhecimento de qualquer discurso no qual pudesse haver, mesmo nas entrelinhas, qualquer animosidade contra os homossexuais. Ainda que em certos casos a homossexualidade seja motivo de escândalo entre os cristãos, como muitas outras coisas evidentemente são, não há, dentro do Cristianismo, a ideia de que o cristão deve punir o pecador em virtude de seu pecado. Tal ação cabe somente a Deus. O escândalo do cristão deve-se, segundo a Bíblia, à sua debilidade espiritual. Quando Jesus andava e comia com pecadores era motivo de escândalo entre os primeiros cristãos, que também eram pecadores, mas tinham de ser lembrados disso de vez em quando. Uma das faces do evangelho cristão é anunciar que nenhum ser humano presta. Entender isso é o primeiro passo para alcançar o Paraíso.

Presumo que o cristão tem suas razões para não levar para a vida prática o que se acha escrito sobre os homossexuais no Antigo Testamento. Não se trata de um Cristianismo self-service, como meu amigo parece pensar. Não é o caso de o cristão escolher na Bíblia apenas o que lhe convém defender. Existe, na verdade, todo um conhecimento teológico historicamente construído que orienta essa leitura. Acontece que poucos são os críticos com paciência e interesse suficientes para mergulhar nesse universo. E, como não o fazem, acabam por falar sobre o que desconhecem completamente. Por puro preconceito, supõem que não pode haver qualquer razoabilidade nessas explicações, daí não se prestarem a ouvir o que um estudioso das escrituras hebraicas e gregas poderia ensinar a um leigo a respeito de certas leis do Antigo Testamento. Existe, por exemplo, uma corrente denominada Dispensacionismo, que aponta as diversas formas como o plano de Deus se manifestou através dos séculos. Segundo essa corrente, entender que vivemos sob uma determinada Dispensação é o caminho para uma leitura adequada de um texto escrito sob outra. O Dispensacionismo concorre com outras correntes interpretativas, sobre as quais não me proponho a discorrer aqui. Os adventistas, por exemplo, têm sua própria linha de interpretação, segundo a qual se distinguem na Bíblia leis civis, cerimoniais e morais. As leis morais, escritas pelo próprio dedo de Deus e entregues a Moisés em tábuas de pedra seriam as únicas de caráter permanente. As demais existiram em certas circunstâncias e para cumprir determinados propósitos. Concedo ao meu amigo que ache despropositadas todas essas leituras e identifique nelas uma tentativa de se acomodar o texto bíblico a um tempo em que preconceitos no geral são vistos como ignorância e atraso. Nesse caso, segundo a Bíblia, o homossexual deveria mesmo ser morto, apesar de o cristão não assumir esse discurso e, para não assumi-lo, utilizar-se de contorcionismos interpretativos. Só não concedo ao meu amigo que afirme que o Cristianismo ensina isso efetivamente ou que dele se possa deduzir tal conclusão. O Cristianismo pode ter seu próprio discurso, independentemente de seus acólitos procederem ou não com uma interpretação fiel do texto bíblico, a qual o meu amigo parece perseguir com peserverança.

É curioso para mim que a compaixão cristã, tão condenada por Nietzsche, seja um aspecto negado por quem identifica no Cristianismo uma mensagem de ódio contra os homossexuais.

Mas, apesar de não existir uma mensagem de ódio contra os homossexuais no Cristianismo, ainda se debita na sua conta a violência de que esse grupo é vítima no país. Um homossexual é espancado? É morto? A culpa deve ser da condenação cristã à homossexualidade, inoculada na mente de todos nascidos sob a influência nefasta dessa religião: quase a totalidade dos brasileiros. Como assim? Uma pessoa agride fisicamente outra, chega a matá-la, pelo simples fato de ser homossexual e a culpa é do Cristianismo? Pobre do agressor, que não teve oportunidade de ter uma educação humanista higienizada da sujeirada cristã! Caso contrário, jamais teria cometido tal ato. A primeira vítima, no caso, deve ser ele, o agressor, e não o homossexual, o agredido. Este também, enquanto vítima, deve ser incluído na contabilidade dos pecados do Cristianismo. Mas, amigo, não se vê aqui o que você denunciou como Cristianismo self-service? Se o Cristianismo defende que a homossexualidade é algo abominável aos olhos de Deus, não defende esse mesmo Cristianismo a amar até mesmo os inimigos? Não ensina a oferecer a outra face? Não ensina a ter compaixão com os pecadores? Como alguém poderia partir para a agressão física justificado pelo Cristianismo?

Sabe qual é o problema? Vivemos sob uma cultura da vitimização, ancorada na ideia equivocada e ingênua de Rousseau (Prometi que voltaria a ele.), de onde também bebeu Marx. Tirando todas as influências da cultura, da religião, do capitalismo, dos videogames, da televisão, etc., o homem será bom, reencontrando-se o seu estado de natureza. Alguém roubou, matou, sequestrou? É culpa do Capitalismo. Alguém abriu fogo em um cinema? A culpa deve ser dos malditos videogames. Alguém espancou e torturou um homossexual? A culpa certamente é do Cristianismo. Sem revelar uma relação necessária entre causa e efeito, proferem-se discursos contundentes contra a religião cristã, demonizando-a, criando uma atmosfera de preconceito contra quem a professe. As consequências desse discurso já podem ser percebidas, mas sobre isso falarei em outro texto.

Há algo que não compreendo e sobre isso já falei muitas vezes. O crítico materialista na sua sanha antirreligiosa parece não se dar conta da enorme confusão em que se meteu. Ora, pois, sob que bases morais ele se propõe a defender o direito de minorias como os homossexuais? Ao fazer tal defesa, ele está defendendo certa moral, mas se for o caso de tudo se resumir à matéria, então não há escapatória: recairemos inevitavelmente em um subjetivismo ético. E, se não há uma verdade moral válida para todos, por que o homossexual deveria ser respeitado? Por que deveríamos condenar seu agressor? Não vejo o que se possa dizer a respeito que seja razoável, mas estou disposto a ouvir as explicações de quem se propuser a fornecê-las. Para o cristão a coisa é mais simples: agir com bondade e compaixão com o pecador é um imperativo categórico. Deus é um ser moral e é à luz disso que o ser humano descobre a moralidade. Algo é bom porque espelha a natureza de Deus. E Deus é bom. Portanto, o Cristianismo apresenta uma base moral sólida a partir da qual o homossexual pode ser defendido de qualquer tipo de violência. O materialismo não pode fornecer isso.

A violência contra os homossexuais pode ser melhor compreendida no contexto do relativismo moral que impera em nossos dias. Quando se fala da degradação moral característica de nosso tempo não se deve entender que o homem moderno se entregou mais ao vício do que o homem da Idade Média ou Antiga. Pode até ser que sim, mas há bastantes controvérsias a respeito. Prefiro não me arriscar. O fato é que o homem é propenso ao vício desde o começo dos tempos e isso não deve mudar até, pelo menos, a volta de Cristo, caso os cristãos tenham razão em sua escatologia. A degradação moral consiste efetivamente na perda gradativa de uma consciência moral. A questão não é errar, mas não reconhecer mais o erro. É esquecer mesmo a ideia de erro. É negar que tal palavra seja constituída de significado. E, quando isso ocorre, qualquer coisa serve como justificativa para qualquer comportamento moral. Até mesmo agredir e matar homossexuais.