terça-feira, 11 de julho de 2017

Biografia feia, mas um belo espelho

Abuso de clichês, trocadilhos infames, informalidade excessiva e outros problemas de estilo. Essas são características perceptíveis no livro Caetano – uma biografia, de autoria de Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco, lançado em maio deste ano pelo selo Seoman. O próprio biografado acabaria revelando seu desagrado pela biografia, não em virtude de alguma inconfidência sobre fatos de sua vida, mas devido ao seu “baixo valor literário”. Apesar de concordar com o cantor e compositor nesse ponto, considero que a biografia escrita pela dupla Drummond e Nolasco oferece uma grande contribuição para a compreensão do multiartista Caetano Veloso.

Nas 544 páginas do livro, acompanhamos toda a trajetória do autor de Alegria, alegria, desde sua infância em Santo Amaro da Purificação até a sua maturidade artística, já com uma carreira nacional e internacional consolidada. Para que se tenha ideia da abrangência temporal da biografia, até mesmo a apresentação de Caetano ao lado de Gilberto Gil e Anitta na abertura das olímpiadas de 2016 é mencionada. Ou seja, um evento que remete a menos de 1 ano atrás. É justamente esse relato minucioso que torna a leitura dessa obra fundamental para quem deseja uma maior aproximação com o universo de Caetano Veloso. Nesse sentido, não há dúvidas de que a biografia é fruto de um grande esforço de pesquisa, o que fica claro diante do grande número de entrevistas feitas, da bibliografia utilizada, das notícias e reportagens consultadas, da colaboração de amigos e parentes, além das informações colhidas com o próprio Caetano, que tomou conhecimento da empreitada no final da década de 1990. Trata-se, portanto, de um registro muito bem documentado da vida e obra de um dos maiores artistas brasileiros.

Por essa razão, sua leitura é enriquecedora, uma vez que muitas informações ali contidas lançam luz sobre a origem e significado de diversas canções, o contexto da criação, as fontes de inspiração, as referências artísticas, a concepção por trás de um dado trabalho, etc. Além disso, tomamos conhecimento do desenhista, ator, cineasta e escritor Caetano Veloso. Suas investidas em outras expressões artísticas são pouco conhecidas, e, por isso mesmo, fornecem-nos importantes elementos para entendermos melhor de que matéria é feito o cantor e compositor baiano. Da mesma forma, podemos entendê-lo melhor por meio do conhecimento de como se deu sua aproximação com determinados artistas e correntes artísticas, e de que forma sua própria arte era recepcionada pela crítica e pelo público.

Bem, as informações são abundantes e o livro é um catatau, mas sua leitura, apesar dos referidos problemas de estilo, flui naturalmente, de sorte que percorremos as suas mais de quinhentas páginas sem nos darmos conta disso. Entendo, depois de ter atingido o ponto final de Caetano – uma biografia, que o livro não me proporcionou nenhum prazer estético, no entanto, para quem se interessa, como eu, pela história da música popular brasileira, certamente é muito melhor lê-lo do que não lê-lo.

Sérgio Santos da Silva


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Um livro para críticos de Paulo Freire

Se a internet favoreceu certa experiência democrática, possibilitando que os indivíduos assumam sua voz, expressando livremente suas opiniões – o que certamente vai ao encontro da ideia de autonomia do sujeito defendida pelo educador Paulo Freire –, é também verdade que permitir a livre expressão das ideias implica certos riscos, que, obviamente, não podemos deixar de correr por medo da liberdade. Freire jamais foi a favor de censura ou da atitude arrogante de quem se coloca na condição de quem tudo sabe e, portanto, nada teria a aprender com os ignorantes, ou seja, com os que nada saberiam. Em vez disso, ele afirmava que o conhecimento do senso comum deve ser valorizado, sendo essa uma condição necessária para sua superação. É evidente que o autor de Pedagogia do Oprimido escrevia sobre Educação quando dizia essas coisas e pensava a liberdade no contexto da sala de aula. Ou seja, o aluno, para Freire, deveria poder assumir sua voz e não se converter apenas em um sujeito passivo, um não-sujeito ou mero objeto. De qualquer forma, é possível pensarmos a liberdade de expressão em um contexto mais amplo, de certo modo, a partir da perspectiva freiriana. Nesse sentido, todos devem ser livres para expressar sua própria leitura do mundo e da palavra, mas o dito, embora não deva ser ignorado, não deve igualmente ser alçado à condição de verdade só porque dito. Isso porque nossas opiniões podem revelar equívocos de interpretação, imprecisões típicas do senso comum e outras falsificações da realidade. Precisamos trabalhar com elas, no entanto, para percebermos quando nos aproximamos e quando nos distanciamos de um conhecimento mais preciso do objeto de nosso comentário. Nesse caso, a melhor estratégia para superar a mera opinião em direção a um conhecimento válido é levando-a em consideração, é operando a partir dela. O interessante é constatarmos que as opiniões sobre a própria obra de Freire podem nos fornecer a possibilidade de verificarmos isso na prática e de percebermos os riscos e oportunidades implicados na assunção da liberdade de expressão pelo sujeito. Isso porque nunca se escreveu e se disse tanta bobagem sobre Paulo Freire quanto neste tempo de onipresença e quase onisciência das redes sociais, mas igualmente nunca houve melhor oportunidade de divulgação das ideias que de fato nosso patrono da Educação defendeu ao longo de sua vida e em sua extensa obra. Tudo isso me veio à mente quando terminei de ler as 192 páginas de seu Professora sim; tia, não – cartas a quem ousa ensinar, publicado pela editora Paz e Terra.

À primeira vista, o livro trataria tão-somente da oposição “professora”, uma categoria profissional x “tia”, uma função parental. Embora esse seja o fio condutor do livro, nele Freire discute alguns aspectos de sua obra que têm sido alvo de críticas infundadas de leitores apressados. Nas linhas seguintes falarei sobre duas dessas críticas para que se tenha ideia da relevância desta importante obra.

Por exemplo, no capítulo intitulado “Identidade cultural e educação”, Freire se dedica a defender a identidade cultural dos educandos e o necessário respeito que devemos ter por ela em nossa prática educativa. O professor é convidado a tomar conhecimento do “que se passa no mundo das crianças com que trabalham. O universo de seus sonhos, a linguagem com se defendem, manhosamente, da agressividade de seu mundo. O que sabem e como sabem independentemente da escola”. Notadamente esse convite a conhecer e respeitar o mundo dessas crianças tem sido entendido pelos críticos “de ouvido” como uma interdição do professor ao cumprimento de seu papel de ensinar, de contradizer, ainda que minimamente, a verdade do aluno. De acordo com essas pessoas, Freire seria, por exemplo, contra o ensino da língua padrão culta porque ela desrespeitaria a variante falada pelo aluno, sendo, assim, uma forma de opressão. No entanto, o autor não poderia ser mais claro, quando diz, nesse mesmo capítulo:

“Jamais disse ou sequer sugeri que as crianças das classes populares não devessem aprender o chamado ‘padrão culto’ da língua portuguesa do Brasil, como às vezes se afirma. O que tenho dito é que os problemas de linguagem envolvem sempre questões ideológicas e, com elas, questões de poder. Por exemplo, se há um ‘padrão culto’ é porque há outro considerado inculto. Quem perfilou o inculto como tal?”

Observe-se que Freire acredita ser necessário que o aluno aprenda o chamado padrão culto da língua, mas, obviamente, não porque tal padrão linguístico se constitua uma variante intrinsecamente melhor do que as variantes linguísticas populares, mas porque tal aprendizado – ele esclarece na sequência – é necessário para que se “diminuam as desvantagens na luta pela vida” e para que se ganhe “um instrumento fundamental para a briga necessária contra as injustiças e as discriminações de que são alvo”. É possível que um crítico avesso aos discursos progressistas discorde dos motivos por que Freire vê como necessário o ensino-aprendizagem da língua portuguesa padrão, mas não poderá afirmar que ele é contrário ao ensino desse tipo de conteúdo na escola. Ademais, é preciso que se diga que as declarações de Freire tanto sobre o padrão culto quanto sobre as variantes populares da língua estão corretas do ponto de vista científico. Apesar de ir de encontro ao senso comum – e frequentemente é isso o que a Ciência faz –, não há dúvidas de que atribuir determinado valor a uma variante linguística deve-se a um fenômeno estritamente social e não a alguma razão natural. Não há quaisquer características inerentes a uma determinada variante que a torne naturalmente mais correta que as demais, obrigando-nos a prestigiá-la em detrimento das outras. O assunto é denso e não cabe nessa breve resenha, mas recomendo a quem tiver interesse no aprofundamento dessa discussão a leitura das várias publicações de respeitados linguistas como Carlos Alberto Faraco, Carlos Franchi, Luiz Antonio Marcuschi ou Marcos Bagno.

Outro tema interessante abordado em “Professora sim; tia, não” é a defesa à liberdade em oposição ao autoritarismo e à licenciosidade. Muitos pretensos críticos da obra de Freire acusam-no de ter retirado a autoridade do professor e incentivado a rebeldia dos alunos. Nada mais longe da verdade. O esclarecimento desse ponto pode ser vislumbrado em obras anteriores como “Pedagogia da autonomia” e “Pedagogia da esperança”, mas aqui Freire vê mais uma oportunidade para ratificar seu pensamento. Leia:

“A educadora democrática, só por ser democrática, não pode assumir sozinha a vida de sua classe, não pode, em nome da democracia, fugir à sua responsabilidade de tomar decisões. O que não pode é ser arbitrária nas decisões que toma. O testemunho, enquanto autoridade de não assumir o seu dever, deixando-se tombar na licenciosidade é certamente mais funesto do que o de extrapolar os limites de sua autoridade.”

Nada mais esclarecedor. Freire, reiteradamente em sua obra – e esse livro não foge à regra –, opõe-se ao autoritarismo do professor na sua atuação em sala de aula, mas defende que esse mesmo professor assuma sua autoridade. Ele não deve agir como se fosse um deus todo-poderoso (a expressão “todo poderoso” aparece no livro), cujas decisões são inquestionáveis, mas não deve, da mesma forma, permitir o vale-tudo em sala, a falta de disciplina, a atitude licenciosa. Para ele, a licenciosidade é algo ainda pior que o próprio autoritarismo. Algo similar é dito em “Pedagogia da esperança”.

Recomendo a leitura integral do livro para quem pretende entender o pensamento de Freire e, talvez, desfazer certos equívocos produzidos por leituras parciais e superficiais de suas obras. Recomendo sobretudo para quem se vê em um lado antagônico do autor. Na verdade, esse convite o próprio Freire faz:

“[...] é sempre bom ler textos que defendem posições políticas diametralmente opostas às nossas. Em primeiro lugar, ao fazê-lo, vamos aprendendo a ser menos sectários, mais radicais, mais abertos; em segundo lugar, terminamos por descobrir que aprendemos também não apenas com o diferente de nós mas até com o nosso antagônico”.

Por fim, só posso dizer que tenho aprendido a ser menos sectário com Freire e certamente tenho aprendido muito com os meus antagônicos. Foram eles que me levaram à leitura dos livros do mais importante autor de Educação do nosso país.

Sérgio Santos da Silva

domingo, 26 de março de 2017

A esquerda não é isso, meu caro!


Algumas pessoas não compreendem minha luta por ideais de esquerda. Isso porque ainda não entenderam que a esquerda não passa de ideais. Ideais que, em nome da clareza e da objetividade, declaro: jamais se concretizarão de forma plena. Explico-me: historicamente quando a esquerda surgiu, no século XVIII, na França, tratava-se de um ideal que se opunha à exploração econômica perpetrada pela nobreza e pelo clero, representados, respectivamente, pelo Primeiro e Segundo Estados, contra o restante da população, que compunha o Terceiro Estado. Ou seja, a esquerda não era nada menos que a luta do Terceiro Estado por ideais de justiça, de igualdade no pagamento de tributos e de acesso às condições mínimas de vida, o que incluía o sagrado direito ao pão de cada dia. Foi esse ideal que esteve presente na divisão dos assentos na Assembleia dos Estados Gerais, que, afinal, deu origem a essa oposição esquerda/ direita. Enquanto a direita representava a conservação do status quo, ou seja, dos privilégios de uma elite política e econômica, a esquerda representava a ruptura com o Antigo Regime e a inclusão das pessoas em uma nova ordem, com mais igualdade e justiça. É preciso que se diga que, nessa época, já havia uma incipiente elite liberal que, usando do discurso de esquerda, ascendeu ao poder e acabou por somar o poder político ao poder econômico que já detinha. Nesse momento, entenda-se, a dita esquerda já não era tão esquerda assim. Ou seja: os liberais passaram a tratar de seus próprios interesses, ao passo que relegaram o povo a segundo plano. Nesse sentido, só parte dos ideais de esquerda se concretizou. Em vez de uma sociedade justa e igualitária, a França assistiu ao Regime de Terror de Robespierre. Estava nascendo, assim, uma nova direita, que apenas se travestiu de esquerda para impor seus interesses particulares.

Quando ocorreu a revolução comunista na Rússia no início do século XX, também se verificou semelhante situação vivida pelos revolucionários franceses. Na esteira do descaso e da violência perpetradas pelo czar contra seu próprio povo, surgiu de novo uma esquerda que se opunha à manutenção dos privilégios de uma elite política que se lixava para a população. Mas, uma vez no poder, primeiros os mencheviques, depois os bolcheviques traíram os ideais de esquerda. Os mencheviques, por manterem a Rússia na Primeira Guerra, acentuando os problemas econômicos do país e a miséria da população; os bolcheviques, por instaurarem uma ditadura sanguinária, sob a liderança inicial de Lênin, seguido por Stálin. Sob a ditadura de Stálin, surgiu uma elite estatal e autoritária que em nada lembrava os ideais de esquerda que motivaram a Revolução. E assim foi na China, e assim foi no Camboja, em Cuba, etc. Em todo lugar nascia uma nova direita que intitulava a si mesma de esquerda.

Quando afirmo e reafirmo minha crença nos ideais de esquerda, portanto, remeto-me à ideia original de esquerda e não ao que comumente se entende por esquerda. A esquerda é um ideal de igualdade, de oposição a quaisquer privilégios, de qualquer natureza. É a luta contra a exploração do homem sobre o homem. Quando uma pessoa se diz de esquerda e defende ou faz o oposto disso é porque mente. Ele não é de esquerda, mas apenas faz uso de discursos de esquerda. E se o discurso e a prática não forem, igualmente, de esquerda, não tenha dúvida: estamos diante de mentirosos e hipócritas.

Por não entenderem isso é que me fazem muitas acusações contra a esquerda, e a verdade é que estão falando de tudo, menos da esquerda. Por exemplo, afirmam que na China o trabalhador é convertido em mão-de-obra barata e explorado até à exaustão. Mas quem disse que os ideais de esquerda têm qualquer relação com a China? Se um homem é explorado por outro homem, não importa o que digam a você, não estamos diante da esquerda, mas de uma direita camuflada, dissimulada, que até mesmo se acredita de esquerda, mas que nega isso o tempo inteiro por meio de palavras e ações. Isso mesmo que estejamos falando de um país ou de um partido comunista. Na Rússia – dizem-me –, homossexuais são condenados à morte. Quer dizer, cara pálida, que um russo heterossexual tem privilégios em relação a um russo homossexual? Quer prova maior de que a sociedade russa cuspiu nos ideais de esquerda? Isso não é esquerda, meu caro.

Entenda de uma vez por todas: eu não luto nem jamais vou lutar por ideais de esquerda tendo como parâmetro a realidade de qualquer país do mundo. A esquerda não é o mundo como ele é, mas como ele deve ser. E o mundo que deve ser não é o mundo como eu quero que seja, e que, querendo-o, procuro impô-lo à força. É, antes, um mundo em que se reconheça uma verdade básica: nenhum homem é superior a qualquer outro homem, e isso porque somos iguais tanto no nascimento quanto na morte. Essa é uma verdade tão evidente que posso afirmar com toda segurança: ninguém é capaz de levantar um só argumento válido para provar o contrário, isto é, a superioridade de um homem em relação ao outro. Simplesmente não existem razões para a defesa dessa imoralidade.

Talvez você me considere um ingênuo ou um tolo por pensar essas coisas. Está enganado quanto ao primeiro, pelo menos. Não tenho ingenuidade alguma. Os ideais de esquerda jamais se concretizarão de forma plena. Por eles deverei sempre lutar e também todos aqueles movidos pela mesma sede de justiça, mas jamais veremos os frutos de nossa luta plenamente desenvolvidos. Engana-se quem pensa que nego Stálin, Pol Pot, Fidel Castro, Hugo Chávez e afins para continuar com meu discurso por ideais de esquerda. Quem me acusa disso, ainda não entendeu da missa um terço. Pensam que eu vou dizer que deturparam os ideais de esquerda. Não os deturparam. Absolutamente. O que esses ditadores fizeram foi ignorar esses ideais, o que é coisa bem diferente. Se o chefe do governo cubano, por exemplo, pode sair da ilha e visitar outra nação do mundo, qualquer cidadão cubano deveria poder fazer a mesmíssima coisa, uma vez que nenhum homem é superior a outro. Se não pode, é porque em Cuba se ignoram os ideais de esquerda.

Saiba: o maior inimigo da esquerda é o discurso liberal, que, por meio de belas ficções, procura justificar a exploração do homem sobre o homem. É também o discurso conservador, que tende a conservar as discriminações de que os homens são vítimas. Esses inimigos, digo, os discursos (e não as pessoas), estão tomando todo o espaço público, contaminando mentes e corações. Diante deles, a luta é acirrada e as vitórias, sempre parciais. Como enfrentar inimigos que se valem do disfarce e da dissimulação? Como enfrentar inimigos que se infiltram até mesmo nos ditos partidos e militâncias de esquerda? A luta da esquerda contra a direita é uma luta que não tem fim, meu caro. Precisamos todos entender isso, com urgência. No entanto, mesmo assim, é uma luta necessária, uma vez que algumas batalhas podem e são vencidas. Se ainda não entendeu: o Éden é uma ilusão mítica, que nunca alcançaremos. Deixemo-lo para as ficções religiosas. O que podemos fazer é que a realidade injusta em que vivemos seja uma realidade um pouco menos injusta amanhã. Se conseguirmos isso, teremos conseguido muito. É isso o que chamo de esquerda. Nada mais.

Sérgio Santos da Silva

domingo, 19 de março de 2017

A reforma da previdência: e agora, Jacó?


De acordo com a narrativa bíblica, Jacó apaixonou-se perdidamente por Raquel e quis tê-la como esposa. Labão, o pai de sua amada, para consentir com aquela união, estipulou uma condição: Jacó deveria trabalhar 7 anos para ele, Labão, e, após esse prazo, o famoso patriarca poderia, enfim, desposar sua filha mais nova. No entanto, após ter cumprido essa condição, Jacó não teve sua merecida recompensa: em vez de Raquel, Labão o fez casar-se com sua filha mais velha, Lia, pois, segundo o costume – argumentou o pai – era necessário casar primeiro a primogênita. Se quisesse casar com Raquel, deveria Jacó trabalhar mais 7 anos. Resignado, Jacó cumpriu com mais esse prazo de trabalho, até poder, enfim, casar-se com Raquel. A narrativa termina com uma promessa de final feliz e o tema é retomado por Camões, que lhe dá um tratamento poético:

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia o pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se não a tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
dizendo: Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida!

Os versos de Camões são belíssimos, mas, embora Jacó tenha obtido seu prêmio após 14 anos de trabalho, o poema aponta duas questões importantes:

1ª – Jacó foi enganado por seu sogro, que lhe explorou o quanto pôde;
2ª – Diante da brevidade da vida, o resultado do esforço pode não ser tão compensatório.

Por que estou relembrando essa narrativa, se este texto, conforme sinalizado pelo título, trata da Reforma da Previdência? Simples: porque ela possibilita uma analogia interessante. Imagine que você, trabalhador brasileiro, é Jacó. Nesse caso, Labão seria o governo e Raquel, a sua recompensa após anos árduos de trabalho. De acordo com o poema, o tempo de “contribuição” de Jacó foi ampliado por meio do mero arbítrio de Labão. Apesar de justificar sua medida arbitrária, é certo que Labão poderia desde o início ter esclarecido a Jacó que ele trabalharia, na verdade, 14 anos para poder casar com Raquel. Mas esse não é o modo de Labão agir. Lembre-se: Labão é o governo, e o governo não dialoga com o trabalhador. Em vez disso, explora-o, deixa-o sem opções, escraviza-o.

Podemos supor que você, o trabalhador Jacó, poderia não ter concordado com a proposta de 14 anos de trabalho, assim explicitada, mas, uma vez ludibriado, receou perder de vez sua amada Raquel, a real razão dos seus esforços, e não viu escolha: teve de resignar-se com o aumento do prazo para poder gozar as alegrias da vida ao lado do seu grande amor. Se já suportara 7 anos, poderia suportar outros 7. O amor por Raquel, afinal, é maior do que as agruras da exploração do trabalho a que tem que se submeter.

Mas o caso não é simples. Quando você, Jacó, conheceu Raquel, tinha 40 anos de idade (de acordo com a Bíblia). Com 7 anos de trabalho, de acordo com o trato inicial, desposaria sua amada aos 47 anos de idade. Com mais 7 anos de trabalho a que foi submetido, teria 54 anos quando pudesse finalmente realizar as suas bodas com Raquel. Ainda seria jovem, você deve pensar, considerando a longevidade dos tempos bíblicos. De acordo com a Bíblia, Jacó morreu aos 147 anos de idade. Mas, pensemos na possibilidade de Labão ser ainda mais cruel. Ele explicaria desde o início que a condição para você seria trabalhar 7 anos pela primogênita e mais 7 por Raquel, o que somaria um total de 14 anos de trabalhos pesados. Considerando que Jacó era pastor de ovelhas, imagine-se, então, um trabalhador rural e continuemos: após esse prazo, Labão diria para você: “meu futuro genro, entendo que você trabalhou duro em minhas terras para poder se casar com minha filha Raquel, mas só tenho duas filhas e não posso ficar agora sem nenhuma. Além disso, não posso perder um valoroso trabalhador na ativa. Você ainda é forte, ainda pode render muito mais. Estamos diante de uma situação crítica, certo? Contente-se por enquanto com Lia e trabalhe para mim mais 14 anos. Isso mesmo: trabalhe, não reclame”.

O que resta a você, diante disso? Se trabalhar para Labão mais 14 anos, só poderá casar-se com Raquel aos 68 anos, ou seja, quando tiver quase 70 anos. Apesar de as narrativas bíblicas se referirem a uma longevidade incrível, é certo que, mesmo nesse tempo, um homem de 70 anos não tinha a mesma disposição de um de 47 ou 54 anos. Quando enfim desposasse Raquel, os dois já não poderiam usufruir das alegrias do casamento que só a juventude possibilita. Se você fosse Jacó, caro trabalhador brasileiro, acharia justa essa medida labânica?

É o que vemos agora, com agravantes. Você, Jacó, trabalha a vida inteira para conquistar uma velhice digna por meio de uma aposentadoria justa, para a qual você contribui 30 (mulheres) ou 35 (homens) anos de serviço. Mas o governo, pretextando salvar o seu direito, resolve mudar as regras do jogo e você, em vez de 30 ou 35 anos, deve agora trabalhar 49 anos, se realmente deseja ficar com Raquel, ou, neste caso, com sua aposentadoria integral. Claro, se não quiser a aposentadoria integral, você deve aceitar perder Raquel e ficar apenas com Lia, a quem você não ama nem deseja. Não, não dá. Você quer Raquel. Mas, o grande problema é que a sua expectativa de vida não é bíblica. Se você começou a trabalhar aos 20 anos, só poderá se aposentar aos 69 anos, ou seja, quase 70. A expectativa de vida no Nordeste brasileiro, por exemplo, não ultrapassa os 70 anos, de acordo com dados do IBGE. Nessas condições, você, o Jacó moderno, só pode sonhar com uma terra prometida para depois da morte. Triste fim para uma narrativa que poderia terminar bem melhor, não acha? Devo dizer: nem Labão foi tão cruel com Jacó quanto o governo do Brasil em relação aos brasileiros. Na real: a sua, a nossa história, meu caro, ainda nem chegou ao fim. Ainda virá a reforma trabalhista, e você, depois disso, terá que lamber as botas de Labão. E agora, Jacó? E o que será de José?

Sérgio Santos da Silva