domingo, 30 de dezembro de 2012

No fundo, uma ideia rasa



            A frase pode expressar um sentimento sincero, mas esconde certa atitude presunçosa. Acostumei-me a ouvi-la, tal a frequência com que ela é dita. De início, incomodava-me muito, depois passei simplesmente a ignorá-la. Quem diz parece não se dar conta de tudo o que está sugerido nessa simples afirmação. Quem ouve, entende instantaneamente. Nas diversas situações em que tive de me expor e revelar minhas opiniões a respeito dos mais variados temas, deparei-me, naturalmente, com muitas pessoas que defendiam opiniões contrárias às minhas e que, por essa razão, criticavam-nas, levantando-lhes muitas objeções. Mas em nenhum desses casos tive de ouvir uma frase semelhante a essa que ouço sempre que o assunto é religião. Sim, é sempre nesse contexto que ela aparece. Basta expor meu ceticismo em relação a tudo que se relaciona com uma realidade espiritual, basta assumir meu ateísmo para ser imediatamente desferido pela seguinte afirmação: “No fundo, no fundo, você acredita em Deus”. Isso mesmo. Lá no meu íntimo, apesar de confessar o oposto, devo acreditar em Deus. Meu interlocutor, ainda que não me conheça intimamente, é capaz de perceber isso. Ele sabe que falo apenas “da boca para fora”. Claro, porque é impossível que alguém não acredite em um deus, sobretudo no Deus cristão, esse deus que a norma culta me obriga a grafar com inicial maiúscula.

sábado, 29 de dezembro de 2012

A espantosa credulidade do ateu


            Não, não se trata de defender aqui, como o título parece sugerir, que para ser ateu é necessário ter fé. Se você é ateu, fique tranquilo quanto a isso. Se você é religioso, perca desde já suas esperanças. Não vou afirmar tal bobagem. Embora não implique, necessariamente, a exclusão da racionalidade, a fé não é, por definição, uma atitude racional. Observe-se que ao fazer tal afirmação não estou sugerindo que os conteúdos da fé não possam ter fundamentos racionais nem que o homem de fé não seja um indivíduo racional, mas que, no ato de fé, tais fundamentos são perfeitamente dispensáveis. Isso significa que a crença pura e simples precede a tentativa de justificá-la, pelo menos como regra geral. Atitude diferente de ter fé é tomada pelo ateu, que vê, na falta de razões suficientes para crer em algo, uma razão suficiente para duvidar da existência desse algo. Essa é uma operação estritamente racional, que, diferente da fé, não pode prescindir dos fundamentos da razão, ainda que não seja garantia de chegar a conclusões corretas. Embora relevante, não é essa a questão que proponho discutir neste artigo, mas a credulidade de muitos ateus em relação ao poder que a educação formal teria na construção de uma sociedade livre de religião. É uma ideia ingênua, meus caros, uma credulidade espantosa.