sexta-feira, 1 de junho de 2018

Doze flores amarelas rompem do palco dos Titãs


Do caralho! Perdoem-me o palavrão, mas se há uma função para as palavras de baixo calão, essa função é a de intensificar os nossos sentimentos, isto é, a de expressar uma ideia de superlativo para a qual não encontramos, no léxico da língua, termos mais apropriados. Pelo menos eu não encontrei melhores palavras para expressar o que foi a minha experiência de ouvir a ópera-rock Doze flores amarelas, do grupo Titãs, recente trabalho lançado no presente ano, dividido em 3 atos. Para mim, foi mesmo do caralho.

Sou declaradamente um fã da banda, mas, como muitos de meus pares, não tinha mais grandes expectativas em relação a novos lançamentos dos assim chamados “patinhos feios” do rock nacional. Uma das bandas mais icônicas do cenário musical paulistano, os Titãs não tinham lançado nada digno de nota desde o 1º acústico MTV, de 1997. A banda, que atingiu o sucesso a partir da pegada punk de discos como Cabeça dinossauro (1986) e Jesus não tem dentes no país dos banguelas (1987), sob forte influência do som dos Inocentes, já havia inscrito definitivamente seu nome na história do rock brasileiro. No entanto, quem acompanha sua trajetória ao longo dos anos, não pôde deixar de constatar, com certo desalento, seu paulatino desmonte, iniciado com a saída de Arnaldo Antunes, em 1992. Seguida, então, da morte de Marcelo Frommer, em 2001; da saída de Nando Reis, em 2002; da de Charles Gavin, em 2010; e, mais recentemente, do desligamento de Paulo Miklos, em 2016. Como manter grandes expectativas em relação ao Titãs, acompanhando todo esse esfacelamento da banda?

Não obstante tudo isso, sim, os Titãs causaram certa surpresa em 2014, quando, depois de quase ter se transformado em um grupo de baladinhas radiofônicas, enveredando por uma espécie de linha evolutiva de seus trabalhos anteriores ao Cabeça Dinossauro, ensaiaram um retorno às origens punk com o álbum Nheengatu. Apesar disso, talvez o álbum não tenha tido a repercussão semelhante ao do disco de 1986 devido ao fato de a banda já soar como um pastiche de si mesma. Diante de tudo isso, o que eu esperava da banda era o eventual lançamento de algum single da estirpe de um “Epitáfio” ou de um “Enquanto houver sol”, melodias e letras belíssimas, sem dúvida, mas nada comparáveis à sonoridade pesada e às letras contundentes registradas nas canções gravadas entre os anos de 1986 e 1995, e que fizeram o nome da banda. Mas sua ópera-rock me surpreendeu de fato. 

Normalmente, um projeto da envergadura de uma ópera-rock é encampado por uma banda jovem, especialmente no seu auge criativo, e não por uma já com décadas de estrada. No entanto, os Titãs, agora reduzidos a apenas três integrantes da formação original (Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Belloto), mostraram que ainda têm energia e talento de sobra para tanto. Ao lançarem essa obra-prima, tornaram-se, pelo menos no dizer deles, a 1ª banda brasileira a compor uma ópera-rock, ou seja, uma história contada inteiramente por meio de canções, à semelhança do que já fez o The Who, com o disco Tommy, de 1969 ; e o Pink Floyd, com o The Wall, de 1979. A distinção aqui, conforme esclarece Tony Belloto em entrevista, é que as citadas bandas inglesas extraíram a encenação a partir de discos gravados, enquanto os Titãs fizeram o caminho inverso: foram gravando os discos ao longo da turnê de Doze flores amarelas.

Não ignoro que depois do mp3, a experiência de audição de um disco autoral mudou radicalmente, tendendo ao consumo fragmentado e aleatório, sem qualquer preocupação com a ideia de unidade que possa ter permeado toda a concepção da obra. Assim, ouvem-se muitas vezes as faixas em ordem distinta da sinalizada no álbum original, ou mesmo dele dissociadas. No entanto, como se trata de um trabalho conceitual, penso que é de bom tom ouvir essa ópera-rock da forma como foi concebida, isto é, dividida em 3 atos, e em determinada sequência. Apesar de a própria banda já ter apresentado em show três das canções que comporiam esse trabalho, sou da mesma opinião do jornalista Luís Felipe Carneiro, que preferiu opinar sobre o novo trabalho dos Titãs só depois de ouvi-lo na íntegra. Afinal de contas, trata-se de uma narrativa linear, ou seja, uma história que segue o curso normal dos acontecimentos. Desse modo, sem dúvida as canções ganham uma diferente conotação e dimensão quando inseridas dentro do disco.

A ópera-rock é narrada por Rita Lee, cuja importância reside no fato de situar o ouvinte na história. O espetáculo em si é assinado por Hugo Possolo e Marcelo Rubens Paiva, e conta uma história de violência sexual contra a mulher. No caso, três meninas (Maria A, Maria B e Maria C) estupradas por cinco homens. Como se vê, trata-se de um tema denso, sobre o qual os próprios Titãs confessaram não estar familiarizados até aceitarem o desafio de compor as canções para o show. Por sinal, a parte musical, muito mais que as letras propriamente, são o ponto alto do disco. Rock’n roll da melhor qualidade, alternando melodias suaves com sonoridades pesadas. As letras não apresentam o lirismo característico de um Nando Reis, nem a estranheza criativa de um Arnaldo Antunes, mas funcionam muito bem no contexto de uma obra narrativa como é o Doze flores amarelas. Destaco a interpretação de Sérgio Britto, que, na minha opinião, sempre foi a voz mais bonita da banda. A meu ver, dentre os muitos vocalistas que a banda já teve, sua voz foi a que melhor traduziu o espírito de canções suaves e reflexivas, como Epitáfio.

Com cordas orquestradas por Jaques Morelenbaum, as canções ganharam em sofisticação, sem perder o peso do rock; apresentaram a agressividade e a contundência do rock, sem se converterem em barulho apenas. Do punk rock ao acústico, o disco todo é musicalmente muito bem sucedido. O espetáculo ainda conta com a participação de três cantoras-atrizes: Corina Sabbas, Cyntia Mendes e Yas Werneck. Além dessa novidade, Tony Belloto começa a se arriscar como vocalista.

Não comentarei aqui nenhuma faixa em especial, mas reafirmo meu entusiasmo diante desse novo trabalho dos Titãs. Lamento apenas não poder ir ao teatro para assistir ao espetáculo, e ter uma melhor noção do que é essa ópera-rock, que une música e dramaturgia. Se isso não é possível, ao menos agora, resta-me, de qualquer forma, expressar um sincero desejo aos remanescentes dessa fodástica banda: merda!!!

Sérgio Santos da Silva




terça-feira, 15 de maio de 2018

Em defesa do dia das mães (e dos pais)


Sou a favor do dia das mães. E do dia dos pais. Alguns anos atrás, pelo menos na minha percepção, esse seria um posicionamento natural. Quem poderia ser contra um dia para homenagearmos aquela figura, geralmente feminina, que assumiu os cuidados maternos? Quem seria contra um dia para lembrarmos da outra figura, geralmente masculina, que assumiu a função paterna? Sim, ser mãe é diferente de ser pai, embora ambos possam dividir tarefas e responsabilidades para com os filhos, embora ambos possam dedicar-se igualmente aos filhos. Mas não é minha intenção aqui explicar as diferenças entre ser mãe e ser pai, mas justificar meu posicionamento favorável aos respectivos feriados de maio e agosto.

Compreendo que a mãe, na ausência de um pai, pode assumir a função paterna. No entanto, a existência de mães que criam filhos sozinhas não indica que pais são desnecessários. Muito pelo contrário: reafirma a importância do pai, isto é, deixa evidente que o pai faz tanta falta, que a mãe procura supri-la como pode. De igual forma, pais podem, na ausência da mãe, assumir a função materna, mas isso só revela a importância da mãe no seio da família. E, claro, a maternidade e a paternidade podem ser assumidas pela avó, pelo avô, pelos tios, pelos irmãos mais velhos, etc. Há ainda os pais e as mães de adoção. O segundo domingo de maio e o segundo de agosto são datas para homenagearmos justamente a figura da mãe e do pai, sejam eles seus progenitores ou não.

Algumas pessoas gostam de dizer coisas como "todo dia é dia das mães", mas essas pessoas sabem que não estão falando nada. Como seres simbólicos que somos, precisamos deixar marcado no tempo o que consideramos importante, aquilo que devemos lembrar sempre para dirigir nossos pensamentos em sua direção ou para celebrá-lo. Então, embora possamos prestar homenagens às nossas mães e aos nossos pais em qualquer dia do ano, ocupamo-nos com nossa vida particular quase o tempo todo e esquecemos de homenageá-los, a não ser nessas datas específicas. É nessas datas que os presenteamos, que dizemos o quanto os amamos, que procurarmos fazer algo especial com e para eles.

Mas voltemos às minhas indagações iniciais: há, sim, pessoas que são contra o dia das mães e contra o dia dos pais, pessoas que advogam um substitutivo "dia da família", que, diferente das duas últimas datas, não seria uma data "excludente". Isso porque há crianças que não têm mãe, ou que não têm pai, ou que não têm ambos. Mas qual é a questão efetivamente? A questão é que não sabemos lidar com o sofrimento, e por isso queremos suprimi-lo totalmente. Advogamos uma espécie de felicidade permanente, em que qualquer coisa que possa evocar uma lembrança triste deve ser "silenciada". Assim, não podemos homenagear as mães porque há crianças sem mãe; não podemos homenagear os pais, porque há crianças sem pai. É assim mesmo?

Penso que o dia das mães é uma data para pensarmos na maternidade; para pensarmos na mãe presente em nossa vida ou na mãe que nos falta. O mesmo pode ser dito do dia dos pais. É tempo de celebração, ou de choro, mas sempre uma oportunidade de reflexão. Uma criança sem mãe (ou pai) pode, em um primeiro momento, sofrer por não ter a quem homenagear na data comemorada na escola. Mas, em outro momento, pode chegar à compreensão, por exemplo, de que é amado por aqueles que zelosamente cuidam dela; de que essas pessoas que tanto fazem por ela são verdadeiramente suas mães e seus pais. Pode também ser capaz de perdoar a mãe ou o pai que a abandonou. Ou de chorar pelo pai ou mãe mortos. Mas em nossos dias já não se permite o choro. Espera-se que crianças estejam sempre rindo, alegres e faceiras. No entanto, o sofrimento é algo bem real no mundo e, de qualquer maneira, inevitável. As lembranças evocadas por essa datas simbólicas, podem, enfim, levar uma criança a crescer um pouco mais. Mas, infelizmente, nos dias de hoje, o choro não é livre.

Sérgio Santos da Silva


sábado, 30 de dezembro de 2017

PROJETO DE LEITURA PARA 2018


Divulgo aqui minha lista de livros que pretendo ler em 2018. Como toda lista desse tipo, trata-se de um projeto de leitura que pretendo cumprir. Espero, evidentemente, poder ler ainda outros títulos. Mas, seguindo as dicas da booktuber Tatiana Feltrin, escolhi apenas 12 títulos, de modo a corresponder ao número de meses do ano. Os títulos não foram elencados na ordem em que pretendo lê-los, mas na ordem em que me ocorreram.

1 – O morro dos ventos uivantes (Emily Brontë) – Já li muitas resenhas elogiosas ao romance de Emily Brontë, que despertaram a minha curiosidade. Há muito que concebia planos de lê-lo.

2 – A grande fome de Mao (Frank Dikötter) – Casualmente, em visita à livraria Cooperativa Cultural, no campus da UFRN, deparei-me com um exemplar deste livro. Li a contracapa e fiquei profundamente incomodado com o que li. Dei mais uma folheada e resolvi adquiri-lo. Tenho grande interesse, provocado por esse tipo de incômodo, em ler sobre tiranos e seu reinado de terror. O livro trata do Grande Salto Adiante, um programa catastrófico, dirigido pelo ditador comunista Mao-Tsé-Tung entre 1958 e 1962, que levou 45 milhões de chineses a passarem fome, submeterem-se a trabalhos forçados e serem espancados até à morte.

3 – Reflexões sobre a revolução em França (Edmund Burke) – Desde que tomei conhecimento da existência do livro de Edmund Burke, tive intenção de lê-lo. Burke foi um teórico conservador e um importante crítico da Revolução Francesa. Em seu livro há a denúncia do perigo da ideologia revolucionária.

4 – Os irmãos Karamazov (Dostoiévski) – Meu interesse em ler o livro vem da recorrente menção da fala de um dos personagens: “Se Deus não existe, tudo é permitido”.

5 – O leopardo (Lampedusa) – Há muito tenho este livro na minha estante. A sugestão da Youtuber Ana Caroline Campagnolo contou muito para a escolha.

6 – O segundo sexo (Simone de Beauvoir) – Tenho pretensão de me apropriar da teoria feminista, de modo a poder dialogar com a crítica conservadora a essa teoria. Para isso, a leitura dessa obra é fundamental.

7 – Sexo privilegiado: o mito da fragilidade feminina (Martin Van Creveld) – Mais um livro cujo interesse foi despertado por um vídeo da professora Ana Caroline Campagnolo. Trata-se de uma obra que pretende desconstruir o mito de que a sociedade privilegia o homem na medida mesma em que oprime as mulheres. Seria mesmo um mito? Bem, pretendo descobrir.

8 – Hitler (Ian Kershaw) – Gosto de biografias e me interesso por entender a gênese da tirania. Acredito que vou gostar muito desse livro, considerado a biografia definitiva do Führer.

9 – Confissões (Santo Agostinho) – Comecei a ler a autobiografia da conversão de Santo Agostinho (não sei se o livro trata de algo mais), no entanto, devido à falta de tempo, acabei por largar a leitura no meio. Espero poder ler esse clássico em 2018.

10 – A ladeira da memória (José Geraldo Vieira) – Indicação da Ana Caroline Campagnolo, que fez rasgados elogios ao autor. Conseguiu despertar minha curiosidade.

11 – Inteligência humilhada (Jonas Madureira) – Outra indicação da Ana, mas já havia ouvido falar dessa obra, que trata, segundo li em resenha, da superação da velha dicotomia razão e fé, para defender “uma razão que ora e uma fé que pensa”.

12 – Eu não sou cachorro, não (Paulo César de Araújo) – Desde que li Roberto Carlos em detalhes, interessou-me ler esta outra obra do Paulo César. Claro, o que contou mais ainda foi o meu propósito de aprofundar-me na história da música popular brasileira.          


terça-feira, 17 de outubro de 2017

O livro de que gosto é ilegal, imoral ou engorda?

Enfim, posso dizer que li um livro proibido. Já faz algumas semanas que concluí a leitura de Roberto Carlos em detalhes, biografia do proclamado rei da música popular brasileira, de autoria do jornalista Paulo Cesar de Araújo, lançado em 2006 pela Editora Planeta. A biografia viria a ser censurada pelo próprio biografado apenas um ano após o seu lançamento. No entanto, ainda que o livro tenha sido recolhido das lojas em 2007, em virtude de uma decisão judicial, uma versão em PDF passou a circular amplamente na internet, o que possibilitou a qualquer um o acesso à obra. No meu caso, que não gosto de ler ebooks no formato PDF, tive a oportunidade de ler as 502 páginas da interdita biografia de Roberto Carlos em uma versão .mobi, o que favoreceu uma leitura mais prazerosa no Kindle.

Quando leio uma biografia, minha expectativa, que não pode ser muito diferente da de outros leitores de biografias, é me deparar com uma narrativa interessante, que, de certo modo, forneça-me elementos para melhor compreender o personagem biografado e a sua obra. Nesse sentido, pode-se dizer que a biografia de Roberto Carlos é bem-sucedida. Como qualquer livro do gênero, em Roberto Carlos em detalhes há a narrativa de toda a trajetória do rei: seu nascimento, o acidente na infância, o sucesso local em uma rádio de Cachoeiro de Itapemirim, a busca pelo sucesso no Rio de Janeiro, a sua “adoção” por Carlos Imperial, a participação, com Tim Maia, no grupo The Sputniks, a imitação de Elvis Presley e, em seguida, de João Gilberto, os primeiros compactos, o primeiro disco, os primeiros fracassos; a chegada na gravadora CBS, o sucesso de “Parei na contramão”, a importante condução de sua produção discográfica por Evandro Ribeiro, a vitória no festival San Remo, o estouro de “Quero que vá tudo pro inferno”, a amizade com Erasmo Carlos, com quem construiria uma profícua parceria musical, etc. etc. etc. A história do rei está ricamente relatada no livro, em detalhes, como promete o título.

No entanto, o livro do Paulo Cesar de Araújo é muito mais do que isso. O que mais me despertou o interesse foi o fato de o autor oferecer ao leitor não apenas o feijão-com-arroz de toda biografia, mas também interessantes análises, como a de movimentos musicais como a bossa nova, a jovem guarda e a tropicália. O pessoal da bossa nova, por exemplo, é mostrado como um grupo extremamente fechado, ao qual Roberto Carlos não tinha direito de se associar. Não obstante isso, a incipiente carreira do autor de “Detalhes” era acompanhada com certo interesse por artistas como Silvinha Telles e o próprio João Gilberto. O livro me fez ainda rever algumas ideias que tinha a respeito do pioneirismo tropicalista de Caetano Veloso e companhia no enfrentamento do tradicionalismo estético que não permitia o uso de instrumentos musicais como a guitarra elétrica, vista como símbolo do imperialismo ianque. A Tropicália é, em grande medida, influenciada por ousadias estéticas e comportamentais de artistas como Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia, que enfrentaram na época forte preconceito, tanto de uma direita conservadora, zelosa pela defesa da moral e dos bons costumes, quanto de uma engajada esquerda, que os acusava de alienados e alienantes.

Há muito mais o que dizer da obra. Paulo Cesar fez um trabalho primoroso e – não há dúvida – bastante respeitoso para com o rei, de modo que me pareceu ainda mais incompreensível a atitude de Roberto Carlos em censurá-lo. A intervenção do rei só serviu para acender o debate sobre biografias não autorizadas. Felizmente, o recolhimento da obra não nos impediu o acesso à agradável leitura da interessante narrativa de um dos mais importantes personagens da história da música brasileira.